sábado, 20 de fevereiro de 2010

Dragões e Domingos

Descendo em disparada a larga avenida, o automóvel negro mal conseguia desviar dos poucos carros que passavam naquela noite de domingo. O piloto era sem dúvida muito bom, mas percebia-se que não era tão bom quanto os pilotos dos carros policiais que o seguiam. Cedo ou tarde aquilo iria acabar. Passou por um cruzamento sem sequer recear uma colisão fatal. As luzes coloridas e piscantes que vinham dos carros de polícia tornavam mais bela a visão daquele carro esportivo, com um dragão esboçado na janela traseira. Um dragão alado. No carro policial detrás, os passageiros agitavam-se.

- Carro vinte e sete chamando central. Em perseguição a um Jaguar negro pela avenida principal. Seguindo em direção do parque municipal. Necessito de bloqueio na saída para a rodovia. Rápido! - O policial ao volante exaltava-se no rádio. O que se sentava ao seu lado, não parecia muito mais preocupado.

- Acalme-se parceiro, ele não vai muito longe.

- Assim espero. Assim espero. - disse o motorista, pegando uma rosquinha da caixa sobre o colo do companheiro.

Os veículos começaram a se aproximar do parque municipal. A avenida agora era uma ladeira, reta e comprida. Os carros então aumentaram a sua velocidade naturalmente e isto preocupou os policiais. Poderiam haver pedestres nos cruzamentos e nas calçadas próximas ao parque. Seria melhor pararem, mesmo que com um acidente, antes de chegarem ao parque. Com muita destreza, o policial ao volante acelerou e guiou o carro para a direita, emparelhando-se ao belo carro negro. Olhou pelo espelho retrovisor e murmurou algo como “onde diabos estão aqueles desgraçados?”, mas sua atenção voltou-se novamente ao carro negro. Ele era um policial maduro, com quase quinze anos de profissão e um habilidoso motorista. Mas odiava encontrar “moleques irresponsáveis que guiam como loucos”, conforme sua própria definição. Ele era, enfim, um policial correto em demasia, de outros tempos, o que talvez tivesse colaborado para que ele desgostasse de seu companheiro no início. Mas isto foi somente no início. Agora eram grandes amigos. E o carro negro veio bruscamente para cima deles, batendo lateralmente com força e pegando-os desapercebidos.

- Ora seu infeliz! - berrou o motorista.

Agora ele sentia uma imensa vontade de olhar nos olhos daquele motorista que se escondia sob os vidros escurecidos. A praça se aproximava. Mas uma vez, o carro negro se dirigiu para cima da viatura e bateu com um grande estrondo, voltando logo em seguida a se afastar. Mantinham-se emparelhados. A praça se aproximava. O carro negro se sacudiu mais uma vez para a direita pronto para mais uma investida.

- Segure-se firme agora! - gritou o motorista reduzindo a marcha do veículo.

O carro negro investiu de forma assustadora, ao mesmo tempo que o policial pisou no freio e jogou a viatura para a esquerda. O Jaguar negro agora estava mais a frente de forma que tremeu e suas rodas travaram quando o carro de polícia bateu em sua traseira. Ambos os carros se arrastaram por alguns metros até que o Jaguar negro virou e ficou atravessado na avenida, empurrado pelo carro de polícia. Em nenhum instante os vidros do Jaguar se quebraram - mesmo quando, na curva derradeira, o Jaguar capotou por sobre um ponto de ônibus vazio.

O motorista ergueu a cabeça ainda atordoado e olhou para o Jaguar de ponta-cabeça sobre o banco do ponto de ônibus. Havia rosquinhas em todo o seu colo e no chão. Ao lado, seu parceiro estava desacordado e com a cabeça ferida. Pegou o rádio, que ainda funcionava.

- Carro vinte e sete chamando central. Acidente durante perseguição. Policial ferido. Provável suspeito ferido. Avenida principal, na curva próxima ao parque. Solicito ajuda imediata.

Ao sair do carro, tonto pelo acidente, olhou para o Jaguar. Agora ele estava com as portas abertas. Preocupado, olhou ao seu redor. Mas atrás, em um beco, um vulto corria.

- Pare! - e disparou atrás da figura que se embrenhava no beco.

Maldito capitão, pensava enquanto corria para o beco tentando sacar sua arma. Trabalhar no domingo é castigo demais.

Chegando próximo ao beco, parou respirando apressadamente. Olhou para dentro cauteloso e não viu nada. Nada além do grande muro que cercava o final do corredor. Bem, acho que ele não pode fugir por ali, pensou. Que droga! Agora tenho que ir atrás do infeliz neste maldito beco.
Tomando uma pose defensiva ele se dispoz em frente a entrada. Não havia absolutamente nada ali a não ser algumas latas vazias pelo chão e duas grandes lixeiras, provavelmente usadas pelos restaurantes próximos para o depósito de seus resíduos. Andava cautelosamente, entrando no beco com sua arma calibre trinta e oito nas mãos. Nunca havia matado alguém antes. Temia muito mais ter que ferir alguém do que ser ferido.

Aproximou-se do primeiro latão de lixo. Rapidamente olhou atrás dele e nada encontrou. Restava o segundo. Ele se perguntava porque aquele homem - ou mulher - fugira deles. Só o que queriam era perguntar onde ele - ou ela - havia comprado um carro tão belo como aquele. Ninguém mais é honesto nesta cidade. É isto, disse a si mesmo. Bem, ao menos não houveram trocas de tiros e tudo o mais. Aonde estarão os outros?


Aproximou-se do segundo latão de lixo. Por algum tempo apenas ouviu o vento, tentando comprovar aquilo que desejava: que não haveria ninguém ali. Então, de maneira resoluta, avançou. Ao apontar sua arma para o espaço vazio atrás da lixeira relaxou, mas não por muito tempo. Onde haveria ido o motorista do Jaguar preto? Olhou em volta. Nada. Quem quer que fora, havia fugido. Foi então que ele percebeu um pedaço de papel no chão próximo à lixeira. Abaixou-se e o pegou. Havia um grande dragão desenhado. Não como o do carro, mas um dragão parecido com aqueles que são dados às crianças no natal, de pelúcia. Um dragão gordo e com as faces rosadas. Em sua barriga branca estava escrito: “Desculpe”. E no verso do papel uma frase tremida dizia: “Seu parceiro está em apuros. Ajude-o”.

Após o susto imediato, ele correu como um louco para a entrada do beco. Ao chegar lá, viu que a viatura pegava fogo. Correu até lá e teve tempo suficiente para retirar seu parceiro e afastá-lo, antes que o carro fosse todo consumido pelas chamas.
Aos poucos mais carros de polícia foram chegando. Seu parceiro agora estava sob cuidados médicos, mas insistia que estava bem e que tinha sido apenas um arranhão. O capitão se aproximou.

- Vocês conseguiram realmente animar este domingo, não?

- Melhor do que um bom jogo de futebol ou uma noite com a patroa não acha? - o motorista riu para si mesmo, sabendo ter acertado o outro em dois de seus pontos fracos.

- Deixe de piadinhas e diga-me porque perseguiam aquele carro. E onde diabos se encontra o motorista dele.

- Eu buzinei para o motorista para perguntar sobre o carro. Estava muito entusiasmado. Mas é, digo era, um belo carro mesmo e. . .

- E?

- Bem, como eu dizia, quando eu buzinou o camarada do carro pisou fundo e se mandou. Achamos que deveria ter algo errado e o seguimos. Ele começou a fazer ultra-passagens perigosas e arriscar os pedrestes, em uma tentativa clara de fuga. Fomos atrás do infeliz e chegamos até aqui. O desgraçado aproveitou o tempo que ficamos meio atordoados para fugir.

- E você olhou o carro? Algo suspeito?

- Não capitão. Não cheguei nem a olhar dentro dele. Mas na verdade há algo com que estou preocupado. Curioso, seria a palavra certa. Sobre o dragão no vidro traseiro.

- Dragão? Que dragão?

- Aquele - e virou-se apontando para a traseira do carro tombado.

Ali não havia mais o dragão ameaçador que vira antes. Apenas um dragão glutão com as faces rosadas, segurando um aparelho de controle remoto e sentado em uma grande poltrona, de frente para um televisor. Embaixo haviam os dizeres: “O domingo devia ser feito para se descançar!”.
O capitão riu e olhou para o policial.

- Você precisa é de férias.